quinta-feira, 20 de julho de 2017

OS SONETOS DA MATILDE (de Alma Welt)
Recomendo por sua graça e vivacidade esta série de sonetos da Alma Welt que compõe um blog inteiro, e expõe como pequenas crônicas em versos a graciosa e terna relação da poetisa com a fiel Matilde, a babá uruguaia que a criou e que depois foi por anos a cozinheira da estância da família Welt .
(Guilherme de Faria)

Memórias de inverno (de Alma Welt)

                   
                       Alma no colo de Matilde - desenho de Guilherme de Faria (1971)      

Memórias de inverno (de Alma Welt)

É no inverno que a alma se concentra
E se volta pras memórias mais queridas
Enquanto na lareira a gente esquenta
Em nossa própria e íntima acolhida...

"Não concordo"- disse Lucia, minha irmã.
"Prefiro a luz quente do sol, fonte de vida.
Tu és alma, mas eu, luz da manhã,
Deixa que a Matilde então decida..."

Então, nos voltando pra a babá
Vimos, coitada, ela prestes a dormir,
Conquanto forte, já exausta de servir...

Mas Matilde despertando disse: "Báh!
Gurias, está gelando, vão pra cama
Sonhar com vossa mãe que ainda vos ama..."
.
19/07/2017

Notas
Alma: Significa "a que alimenta", "a que nutre", "a que dá a vida", ou "alma".

Lúcia: Significa “a luminosa”, “a iluminada” ou "aquela que nasceu com a manhã".
Lúcia é a variante feminina de Lúcio, nome que tem origem no latim Lucius, derivado dos elementos lyke, luc, luk, que deram origem a palavra em latim lux, que significa “luz”, por extensão “a luminosa”.

Matilde: Significa "força na batalha" ou "guerreira forte".
A origem de Matilde é germânica, a partir de Mahthildis, que une os elementos maht, que significa "força" e hild, que quer dizer "batalha, combate" e significa "força na batalha, guerreira forte".

Alma, casada (de Alma Welt)

Minha Matilde me quer fazer rezar
Pro seu Santo Antonio das gurias.
Ela acha que preciso me casar
Pra parar de fazer estrepulias

E correr louca atrás de meu irmão,
Escândalo antigo que agonia
A minha boa bá que isso já via
Desde que éramos piás no casarão.

Mas lhe digo enquanto se persigna:
Sabe, querida, com Rodo sou casada,
Secreto rito celebrou a minha fada,

No bosque foi o enlace consumado.
A culpa não é da fada, mas do Fado,
Se aos teus olhos ainda sou indigna...

(sem data)

Auto-retrato (de Alma Welt)

As minhas andanças na coxilha,
De meu pensamento são passeios
E semeiam minha alma como silha
Para frutificar por outros meios,

Poemas, sonetos e memórias
Que eu nem sequer sabia ter retido
De outras gerações e suas estórias,
Num fluxo permanente e incontido.

O corpo? Sim, também floresce...
E estes prados viram meu amor
E minha beleza enquanto cresce.

Mas a prenda tão cedo rebelada,
E, diz Matilde, perdida em despudor,
Não servirá pro homem e pra mais nada...

17/08/2006

Exausta (de Alma Welt)

Às vezes, de mim mesma fico exausta
E sem forças nem mesmo pra deixar-me.
Entretanto, garanto, não é charme
De quem está acostumada à vida fausta.

Como se fosse o derradeiro cada dia,
Sorvo avidamente o meu entorno
E isso tem trazido algum transtorno
Para quem me cerca e me avalia,

Como a minha fidelíssima Matilde,
Que da simplicidade é o protótipo,
Tão sensata embora pouco humilde

Pois bem que me queria ver mudada,
Tranqüila e bem feliz no estereótipo
De uma prenda deste Sul, apaziguada...

(sem data)

Para Onde? (de Alma Welt)

Para onde terá ido o realejo
Que nostalgizava minhas ruas?
Já faz... tanto tempo... não o vejo
E isso envelhece minhas luas...

E o firinfimfim do amolador?
A gaitinha de pã tão pobrezinha,
Cujo som, por si só encantador,
Afiava as facas todas da cozinha...

E o rententém, então, do paneleiro
Que chamava nossos apegados tachos
E panelas já tão gastas no braseiro?

O tequetéque dos bijus, estranho solo,
Matraca que atraía até os machos
E tirados de um latão a tiracolo...