quinta-feira, 20 de julho de 2017

Alma, casada (de Alma Welt)

Minha Matilde me quer fazer rezar
Pro seu Santo Antonio das gurias.
Ela acha que preciso me casar
Pra parar de fazer estrepulias

E correr louca atrás de meu irmão,
Escândalo antigo que agonia
A minha boa bá que isso já via
Desde que éramos piás no casarão.

Mas lhe digo enquanto se persigna:
Sabe, querida, com Rodo sou casada,
Secreto rito celebrou a minha fada,

No bosque foi o enlace consumado.
A culpa não é da fada, mas do Fado,
Se aos teus olhos ainda sou indigna...

(sem data)

Auto-retrato (de Alma Welt)

As minhas andanças na coxilha,
De meu pensamento são passeios
E semeiam minha alma como silha
Para frutificar por outros meios,

Poemas, sonetos e memórias
Que eu nem sequer sabia ter retido
De outras gerações e suas estórias,
Num fluxo permanente e incontido.

O corpo? Sim, também floresce...
E estes prados viram meu amor
E minha beleza enquanto cresce.

Mas a prenda tão cedo rebelada,
E, diz Matilde, perdida em despudor,
Não servirá pro homem e pra mais nada...

17/08/2006

Exausta (de Alma Welt)

Às vezes, de mim mesma fico exausta
E sem forças nem mesmo pra deixar-me.
Entretanto, garanto, não é charme
De quem está acostumada à vida fausta.

Como se fosse o derradeiro cada dia,
Sorvo avidamente o meu entorno
E isso tem trazido algum transtorno
Para quem me cerca e me avalia,

Como a minha fidelíssima Matilde,
Que da simplicidade é o protótipo,
Tão sensata embora pouco humilde

Pois bem que me queria ver mudada,
Tranqüila e bem feliz no estereótipo
De uma prenda deste Sul, apaziguada...

(sem data)

Para Onde? (de Alma Welt)

Para onde terá ido o realejo
Que nostalgizava minhas ruas?
Já faz... tanto tempo... não o vejo
E isso envelhece minhas luas...

E o firinfimfim do amolador?
A gaitinha de pã tão pobrezinha,
Cujo som, por si só encantador,
Afiava as facas todas da cozinha...

E o rententém, então, do paneleiro
Que chamava nossos apegados tachos
E panelas já tão gastas no braseiro?

O tequetéque dos bijus, estranho solo,
Matraca que atraía até os machos
E tirados de um latão a tiracolo...

terça-feira, 2 de abril de 2013

Crônica de um destino anunciado (de Alma Welt)


Ser poeta em sintonia com a alma
Teria sido meu destino anunciado.
Assim disse a cigana lendo a palma
Desta, que aqui vês, de olhar pasmado.

Pensei-me então um ser predestinado
Capaz de com os deuses conversar
E no bosque ter as fadas do meu lado
E não como uma intrusa a expulsar...

“Bah! Que tonterías dices”, diz Matilde,
Minha bá que agora é cozinheira
Mas que nunca pecou por ser humilde...

“Se persistes nestes teus loucos enredos
Permanecerás só, tonta e solteira
A contar sílabas e não filhos nos dedos...”

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Eu, os deuses e minha bá (de Alma Welt)


Eu costumava falar muito com Deus
Mas sem deixar de falar com os outros deuses
Quando a Matilde censurou os sonhos meus
Por pouco estoque e excesso de fregueses...

"Guria, onde tens essa cachola
Pra tanto assim ofenderes o Eterno?
És uma pagã de se negar esmola
Ou de se expulsar em pleno inverno!"

Mas eu não aceitei tal reprimenda
Pois em mim não há malícia nem maldade,
E quem vive em graça não se emenda.

E se sem Ele sequer cai uma folha,
Também os deuses são parte da Verdade.
"Báh, Matilde! Dá-me um beijo e não me tolha!"

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A cortesã- desenho de Guilherme de Faria, 75x100cm

A cortesã (de Alma Welt)

Há uma cortesã que mora em mim
Embora não seja ela a única,
O que me impede oferecer-me assim
E a nudez cobrir-me com a túnica.

Cercada estou eu de alcoviteiras...
Me desculpem Matilde e a Solange,
Não esperem que me venda pelas feiras,
Mas todo casamento me constrange.

É mais fácil pensar-me mais rampeira
Oferecendo-me de graça ou por tostões
Do que aprisionar esta pampeira...

E anel jamais porão, ou uma coleira,
Nesta Alma de poesia aos borbotões,
Eu, que de mim já sou a estancieira...