domingo, 29 de maio de 2011

Para onde? (de Alma Welt)

Para onde terá ido o realejo
Que nostalgizava minhas ruas?
Já faz tanto tempo... não o vejo
E isso envelhece minhas luas...

E o firinfimfim do amolador?
A gaitinha de pã tão pobrezinha,
Cujo som, por si só encantador,
Afiava as facas todas da cozinha...

E o rententém, então, do paneleiro
Que chamava nossos apegados tachos
E panelas já tão gastas no braseiro?

Foram todos, menos eu e a Matilde,
Eu que ainda ostento rubros cachos,
Ela, o coração bem mais humilde...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As Velas da Matilde (de Alma Welt)

Desce a cortina lenta sobre mim.
A noite, a noite dos amantes,
Dos sonhos fugazes, inconstantes,
Eu sinto, agora desce para o fim.

Quanto cantei, dancei, versifiquei
Milhares de rimas sobre resmas,
Recriando as imagens que amei
Reconstruindo gratas abantesmas.

Ai! Quisera ficar mais um instante
Se me fosse retornada a alegria
Ou somente a irmã Melancolia...

Todavia ainda guardo um sonho infante,
Da Matilde minhas estrelas são as velas,
Posso dormir feliz no meio delas...

16/01/2007

domingo, 16 de janeiro de 2011

Fábulas (de Alma Welt)

Às vezes, tantas vezes, me indago
Se cresci mesmo, se adulta hei de ser.
Mas esta guria que ainda trago
Não me deixará jamais crescer

Com prejuízo do meu próprio futuro,
Diz Matilde que quer me ver casada.
Mas o futuro está ainda atrás do muro,
Ou mesmo já chegou e não fiz nada,

Diz ela que me vê tonta a vagar
Na campina assim a contar sílabas,
Que lhe parece que estou já a delirar.

E é verdade, no meu louco tear teço
A trama de uma vida toda em fábulas
Ao contrário: da moral para o começo...

As Noites da Infanta (de Alma Welt)

Estar sob as estrelas nestes campos
Era meu grande prazer quando guria,
E eu não sentia maior outra alegria
Que nas noites do piscar dos pirilampos

Em que me via, em minha infância,
A correr no prado ou no jardim
Atrás das fadinhas desta estância,
Que cuidavam do destino para mim.

E eu me sabia a protegida delas,
Que velariam o meu sono de infanta
Ao som do leve crepitar das velas

Que a Matilde acenderia pressurosa
Depois de me cobrir com uma manta
E sobre ela, sem espinhos, minha rosa...

08/07/2005