terça-feira, 2 de abril de 2013
Crônica de um destino anunciado (de Alma Welt)
Ser poeta em sintonia com a alma
Teria sido meu destino anunciado.
Assim disse a cigana lendo a palma
Desta, que aqui vês, de olhar pasmado.
Pensei-me então um ser predestinado
Capaz de com os deuses conversar
E no bosque ter as fadas do meu lado
E não como uma intrusa a expulsar...
“Bah! Que tonterías dices”, diz Matilde,
Minha bá que agora é cozinheira
Mas que nunca pecou por ser humilde...
“Se persistes nestes teus loucos enredos
Permanecerás só, tonta e solteira
A contar sílabas e não filhos nos dedos...”
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Eu, os deuses e minha bá (de Alma Welt)
Eu costumava falar muito com Deus
Mas sem deixar de falar com os outros deuses
Quando a Matilde censurou os sonhos meus
Por pouco estoque e excesso de fregueses...
"Guria, onde tens essa cachola
Pra tanto assim ofenderes o Eterno?
És uma pagã de se negar esmola
Ou de se expulsar em pleno inverno!"
Mas eu não aceitei tal reprimenda
Pois em mim não há malícia nem maldade,
E quem vive em graça não se emenda.
E se sem Ele sequer cai uma folha,
Também os deuses são parte da Verdade.
"Báh, Matilde! Dá-me um beijo e não me tolha!"
sexta-feira, 15 de junho de 2012
A cortesã- desenho de Guilherme de Faria, 75x100cm
A cortesã (de Alma Welt)
Há uma cortesã que mora em mim
Embora não seja ela a única,
O que me impede oferecer-me assim
E a nudez cobrir-me com a túnica.
Cercada estou eu de alcoviteiras...
Me desculpem Matilde e a Solange,
Não esperem que me venda pelas feiras,
Mas todo casamento me constrange.
É mais fácil pensar-me mais rampeira
Oferecendo-me de graça ou por tostões
Do que aprisionar esta pampeira...
E anel jamais porão, ou uma coleira,
Nesta Alma de poesia aos borbotões,
Eu, que de mim já sou a estancieira...
A cortesã (de Alma Welt)
Há uma cortesã que mora em mim
Embora não seja ela a única,
O que me impede oferecer-me assim
E a nudez cobrir-me com a túnica.
Cercada estou eu de alcoviteiras...
Me desculpem Matilde e a Solange,
Não esperem que me venda pelas feiras,
Mas todo casamento me constrange.
É mais fácil pensar-me mais rampeira
Oferecendo-me de graça ou por tostões
Do que aprisionar esta pampeira...
E anel jamais porão, ou uma coleira,
Nesta Alma de poesia aos borbotões,
Eu, que de mim já sou a estancieira...
domingo, 29 de maio de 2011
Para onde? (de Alma Welt)
Para onde terá ido o realejo
Que nostalgizava minhas ruas?
Já faz tanto tempo... não o vejo
E isso envelhece minhas luas...
E o firinfimfim do amolador?
A gaitinha de pã tão pobrezinha,
Cujo som, por si só encantador,
Afiava as facas todas da cozinha...
E o rententém, então, do paneleiro
Que chamava nossos apegados tachos
E panelas já tão gastas no braseiro?
Foram todos, menos eu e a Matilde,
Eu que ainda ostento rubros cachos,
Ela, o coração bem mais humilde...
Que nostalgizava minhas ruas?
Já faz tanto tempo... não o vejo
E isso envelhece minhas luas...
E o firinfimfim do amolador?
A gaitinha de pã tão pobrezinha,
Cujo som, por si só encantador,
Afiava as facas todas da cozinha...
E o rententém, então, do paneleiro
Que chamava nossos apegados tachos
E panelas já tão gastas no braseiro?
Foram todos, menos eu e a Matilde,
Eu que ainda ostento rubros cachos,
Ela, o coração bem mais humilde...
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
As Velas da Matilde (de Alma Welt)
Desce a cortina lenta sobre mim.
A noite, a noite dos amantes,
Dos sonhos fugazes, inconstantes,
Eu sinto, agora desce para o fim.
Quanto cantei, dancei, versifiquei
Milhares de rimas sobre resmas,
Recriando as imagens que amei
Reconstruindo gratas abantesmas.
Ai! Quisera ficar mais um instante
Se me fosse retornada a alegria
Ou somente a irmã Melancolia...
Todavia ainda guardo um sonho infante,
Da Matilde minhas estrelas são as velas,
Posso dormir feliz no meio delas...
16/01/2007
A noite, a noite dos amantes,
Dos sonhos fugazes, inconstantes,
Eu sinto, agora desce para o fim.
Quanto cantei, dancei, versifiquei
Milhares de rimas sobre resmas,
Recriando as imagens que amei
Reconstruindo gratas abantesmas.
Ai! Quisera ficar mais um instante
Se me fosse retornada a alegria
Ou somente a irmã Melancolia...
Todavia ainda guardo um sonho infante,
Da Matilde minhas estrelas são as velas,
Posso dormir feliz no meio delas...
16/01/2007
domingo, 16 de janeiro de 2011
Fábulas (de Alma Welt)
Às vezes, tantas vezes, me indago
Se cresci mesmo, se adulta hei de ser.
Mas esta guria que ainda trago
Não me deixará jamais crescer
Com prejuízo do meu próprio futuro,
Diz Matilde que quer me ver casada.
Mas o futuro está ainda atrás do muro,
Ou mesmo já chegou e não fiz nada,
Diz ela que me vê tonta a vagar
Na campina assim a contar sílabas,
Que lhe parece que estou já a delirar.
E é verdade, no meu louco tear teço
A trama de uma vida toda em fábulas
Ao contrário: da moral para o começo...
Se cresci mesmo, se adulta hei de ser.
Mas esta guria que ainda trago
Não me deixará jamais crescer
Com prejuízo do meu próprio futuro,
Diz Matilde que quer me ver casada.
Mas o futuro está ainda atrás do muro,
Ou mesmo já chegou e não fiz nada,
Diz ela que me vê tonta a vagar
Na campina assim a contar sílabas,
Que lhe parece que estou já a delirar.
E é verdade, no meu louco tear teço
A trama de uma vida toda em fábulas
Ao contrário: da moral para o começo...
As Noites da Infanta (de Alma Welt)
Estar sob as estrelas nestes campos
Era meu grande prazer quando guria,
E eu não sentia maior outra alegria
Que nas noites do piscar dos pirilampos
Em que me via, em minha infância,
A correr no prado ou no jardim
Atrás das fadinhas desta estância,
Que cuidavam do destino para mim.
E eu me sabia a protegida delas,
Que velariam o meu sono de infanta
Ao som do leve crepitar das velas
Que a Matilde acenderia pressurosa
Depois de me cobrir com uma manta
E sobre ela, sem espinhos, minha rosa...
08/07/2005
Era meu grande prazer quando guria,
E eu não sentia maior outra alegria
Que nas noites do piscar dos pirilampos
Em que me via, em minha infância,
A correr no prado ou no jardim
Atrás das fadinhas desta estância,
Que cuidavam do destino para mim.
E eu me sabia a protegida delas,
Que velariam o meu sono de infanta
Ao som do leve crepitar das velas
Que a Matilde acenderia pressurosa
Depois de me cobrir com uma manta
E sobre ela, sem espinhos, minha rosa...
08/07/2005
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