Alma, casada (de Alma Welt)
Minha Matilde me quer fazer rezar
Pro seu Santo Antonio das gurias.
Ela acha que preciso me casar
Pra parar de fazer estrepulias
E correr louca atrás de meu irmão,
Escândalo antigo que agonia
A minha boa bá que isso já via
Desde que éramos piás no casarão.
Mas lhe digo enquanto se persigna:
"Sabe, querida, com Rodo sou casada,
Secreto rito celebrou a minha fada,
No bosque foi o enlace consumado.
A culpa não é da fada, mas do Fado,
Se aos teus olhos ainda sou indigna"...
(sem data)
Uma outra infância (de Alma Welt)
133
Em recentes noites desta estância,
Eu reconheço comecei a sentir medo,
Coisa que não tive em minha infância
A menos que isso seja engano ledo:
Me lembro de sair sem outros lumes,
Do meu leito para ir até o jardim
Para sentir o perfume do jasmim,
Nua a vagar com os vagalumes.
Agora, envergonhada eu confesso
Que, assustada acordo e me apresso
Em camisola ir ao quarto da babá,
Minha Matilde velha que me abraça
Sob as cobertas furadas pela traça,
E que me esperavam desde lá...
17/01/2007
Um sonho da Alma (de Alma Welt)
(138)
Decidi ser mãe mais uma vez
(há muito perdi uma criança...)
Nem que tenha que laçar como uma rês
Um peão, um macho, aqui na estância.
Mas caí na esparrela de contar
Meu plano para a pobre da Matilde,
Que só faltou com uma vara me açoitar,
Dizendo: " Bah! Como a rainha é humilde!"
"Mas não podes, tu tens que respeitar-te!
Não vás deitando com qualquer gaudério
Que podes com certeza machucar-te..."
"E depois, como livrar-te do infeliz,
Que deitar-te contigo, quem não quis?
E já temos alguns no cemitério!"
19/01/2007
Lendas do meu bosque (de Alma Welt)
(146)
O meu bosque reserva o seu segredo
Para quem tem olhos e ouvidos,
Poucos, na verdade, os escolhidos
Capazes de adentrarem-no sem medo.
Principalmente quando no crepúsculo
Principiam as fantasmagorias
E aquele vago lusco-fusco
Produzido por ocultas fadarias.
"Nada de bosque!" alertava a Matilde
"Que ali o malígno espreita
Tanto guria nobre como humilde."
"Conheci uma que sumiu e não mais vi
Para me contar que coisa é feita
Com aquelas que se agacham pro xixi..."
15/01/2007
Palavras à Matilde (de Alma Welt)
(156)
Matilde, me prepara aquele mate
Que hoje não levanto do meu leito!
Acordei com aquela dor no peito
Causada pela falta do meu Vati.
Não quero escrever e nem pintar,
E muito menos, como dizes, trabalhar,
Já que não dás valor à minha arte
E vives a dizer que vivo à parte
Longe das coisas deste mundo
Que pra ti é somente o dia-a-dia,
Os trabalhos e os deveres, sem poesia...
Mas então, Matilde, tu não vês
Que o soneto é meu labor profundo
A espelhar o mundo que Deus fez?
28/11/2006
Manhã (de Alma Welt)
(179)
Matilde, prepara-me o amargo
Que quero sair e pôr-me ao largo
Navegando ao vento na campina
Como nau que a branca vela empina.
A brisa a fluir no azul profundo,
Pode mais propício estar o mundo?
Quem foi que disse ser um sacrifício
A vida, o viver e seu ofício?
Olha aquele umbu ali ao sol
Coalhado de pássaros qual flores
A agitar-se como agitam-se os amores!
Dá-me, Matilde, uma côdea de pão
Que vou a mastigar com o chimarrão
Enquanto examinas meu lençol!*
29/11/2006
Palavras da Matilde (de Alma Welt)
(181)
Alma, volta logo, não nos deixe
Preocupados aqui com a princesa.
Sei que estás no prado como um peixe
Na água, alegria e... afoitesa.
Ontem um peão te viu pelada
A cavalgar como se não fosse nada.
Quem conta conto um ponto aumenta
E tua brancura é que os desorienta.
Mas olha, guria, boa prenda
Fica em casa a fazer teia de renda
Até o momento feliz de a recolher,
Pois queiras ou não tu és mulher
E o nosso destino não escolhe
Senão dever, marido e vasta prole.
02/12/2006
Estória da Matilde (de Alma Welt)
(199)
Matilde, que agora reza e reza,
Houve tempo em que abria para mim
E contou-me que dentro dela pesa
Um remorso imenso e sem fim.
Ela deixara um filho natural
Num orfanato, só, por indigência,
Mas ao buscá-lo em penitência,
Soube de algo terrível e fatal:
A criança se fora num inverno
Em que o minuano assaltara
O casarão gelado e a levara...
Então Matilde andou pelo Inferno
Por dez anos até que o Galdério
A encontrou a dormir num cemitério.
12/01/2007
Nobrezas (de Alma Welt)
(203)
Vinha um cavaleiro pela estrada
Que meu pai acompanhava desde longe,
Mas não foi buscar a espingarda
Nem ficou imóvel como um monge.
Agitou-se e me disse emocionado:
"Alma, é o Rogério, meu amigo,
Reconheço-o pelo seu jeito montado,
Como se fora cavaleiro antigo."
"Ninguém monta mais como o Rogério,
Que denotava a sua nobreza
Tanto sobre a sela quanto à mesa."
"Alma, peça pra Matilde e pro Galdério
Prepararem estrebaria e almoço
Que precisamos ser dignos do moço."
08/11/2006
La niña (de Alma Welt)
230
Quando me aproximo da estância
Pelo meu trenzinho fumegante
É que paro de pensar por um instante
E me sinto retornar à minha infância.
Ah! que bela sensação de aconchego
Ainda em pleno campo, mais humilde,
Estar de volta a um mundo de sossego
Como estava nos braços da Matilde
Minha doce babá, velhota agora,
Séria, em diligências na cosinha,
Mas cuja ternura ainda vigora
E que me espera ali no seu domínio
Como se nada estivesse em seu declínio,
Pra abraçar "sin embargo" a sua "niña"!
08/09/2006
Chuva e sol, ou La niña (de Alma Welt)
239
Rôdo, mano, vai na frente espionar
Pra ver se posso entrar pela cosinha!
Matilde já não quer acobertar
As loucas escapadas de "la niña".
Já que estou molhada e seminua,
Minha Bá achará que estou sem roupa
E a Mutti se me pega perpetua
O mito de que Alma é mesmo louca.
Com a chegada do nosso haragano,
Bah! rolar na chuva nestes prados
Com o sol em contraponto pampiano
E ter estado nos teus braços, meu irmão,
Gritando de alegria, ensopados,
Vale na certa os tapas e o sermão!
04/11/2005
A encrenqueira (de Alma Welt)
240
Esta noite farei preces no pomar
Aos deuses e também a outros entes,
Ataviei-me em panos transparentes
E por isso terei que me esgueirar.
Se preciso sairei pela janela
Descendo pela minha amoreira
Pois o medo da Matilde ainda me pela,
Que tantas vezes se planta na soleira
E tenho que evitar ser apanhada
Pois teme que me pegue algum vilão,
(que pra ela estarei mais que pelada)
E vigia sua "niña" encrenqueira
Por horas sorvendo o chimarrão
Enquanto orvalho cai sobre a roseira...
À deriva (de Alma Welt)
247
Altas horas, silêncios rumorosos
De grilos, de sapos e os estalos
Do casarão com seus nichos tenebrosos
Por onde o Tempo escorre pelos ralos.
A casa arfa, suspira, sofre e geme
Com o peso de sua circunstância.
Como um barco náufrago, sem leme,
Que já não disfarça a sua ânsia,
A ausência de piloto é um mistério...
A poetisa, o jogador e a cozinheira
E um contra-mestre com nome de gaudério
Somos pois os tripulantes que vagamos
Dentro de uma nave sem esteira,
E não sabemos mais pra onde vamos.
15/01/2007
domingo, 24 de maio de 2009
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