A cortesã- desenho de Guilherme de Faria, 75x100cm
A cortesã (de Alma Welt)
Há uma cortesã que mora em mim
Embora não seja ela a única,
O que me impede oferecer-me assim
E a nudez cobrir-me com a túnica.
Cercada estou eu de alcoviteiras...
Me desculpem Matilde e a Solange,
Não esperem que me venda pelas feiras,
Mas todo casamento me constrange.
É mais fácil pensar-me mais rampeira
Oferecendo-me de graça ou por tostões
Do que aprisionar esta pampeira...
E anel jamais porão, ou uma coleira,
Nesta Alma de poesia aos borbotões,
Eu, que de mim já sou a estancieira...
sexta-feira, 15 de junho de 2012
domingo, 29 de maio de 2011
Para onde? (de Alma Welt)
Para onde terá ido o realejo
Que nostalgizava minhas ruas?
Já faz tanto tempo... não o vejo
E isso envelhece minhas luas...
E o firinfimfim do amolador?
A gaitinha de pã tão pobrezinha,
Cujo som, por si só encantador,
Afiava as facas todas da cozinha...
E o rententém, então, do paneleiro
Que chamava nossos apegados tachos
E panelas já tão gastas no braseiro?
Foram todos, menos eu e a Matilde,
Eu que ainda ostento rubros cachos,
Ela, o coração bem mais humilde...
Que nostalgizava minhas ruas?
Já faz tanto tempo... não o vejo
E isso envelhece minhas luas...
E o firinfimfim do amolador?
A gaitinha de pã tão pobrezinha,
Cujo som, por si só encantador,
Afiava as facas todas da cozinha...
E o rententém, então, do paneleiro
Que chamava nossos apegados tachos
E panelas já tão gastas no braseiro?
Foram todos, menos eu e a Matilde,
Eu que ainda ostento rubros cachos,
Ela, o coração bem mais humilde...
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
As Velas da Matilde (de Alma Welt)
Desce a cortina lenta sobre mim.
A noite, a noite dos amantes,
Dos sonhos fugazes, inconstantes,
Eu sinto, agora desce para o fim.
Quanto cantei, dancei, versifiquei
Milhares de rimas sobre resmas,
Recriando as imagens que amei
Reconstruindo gratas abantesmas.
Ai! Quisera ficar mais um instante
Se me fosse retornada a alegria
Ou somente a irmã Melancolia...
Todavia ainda guardo um sonho infante,
Da Matilde minhas estrelas são as velas,
Posso dormir feliz no meio delas...
16/01/2007
A noite, a noite dos amantes,
Dos sonhos fugazes, inconstantes,
Eu sinto, agora desce para o fim.
Quanto cantei, dancei, versifiquei
Milhares de rimas sobre resmas,
Recriando as imagens que amei
Reconstruindo gratas abantesmas.
Ai! Quisera ficar mais um instante
Se me fosse retornada a alegria
Ou somente a irmã Melancolia...
Todavia ainda guardo um sonho infante,
Da Matilde minhas estrelas são as velas,
Posso dormir feliz no meio delas...
16/01/2007
domingo, 16 de janeiro de 2011
Fábulas (de Alma Welt)
Às vezes, tantas vezes, me indago
Se cresci mesmo, se adulta hei de ser.
Mas esta guria que ainda trago
Não me deixará jamais crescer
Com prejuízo do meu próprio futuro,
Diz Matilde que quer me ver casada.
Mas o futuro está ainda atrás do muro,
Ou mesmo já chegou e não fiz nada,
Diz ela que me vê tonta a vagar
Na campina assim a contar sílabas,
Que lhe parece que estou já a delirar.
E é verdade, no meu louco tear teço
A trama de uma vida toda em fábulas
Ao contrário: da moral para o começo...
Se cresci mesmo, se adulta hei de ser.
Mas esta guria que ainda trago
Não me deixará jamais crescer
Com prejuízo do meu próprio futuro,
Diz Matilde que quer me ver casada.
Mas o futuro está ainda atrás do muro,
Ou mesmo já chegou e não fiz nada,
Diz ela que me vê tonta a vagar
Na campina assim a contar sílabas,
Que lhe parece que estou já a delirar.
E é verdade, no meu louco tear teço
A trama de uma vida toda em fábulas
Ao contrário: da moral para o começo...
As Noites da Infanta (de Alma Welt)
Estar sob as estrelas nestes campos
Era meu grande prazer quando guria,
E eu não sentia maior outra alegria
Que nas noites do piscar dos pirilampos
Em que me via, em minha infância,
A correr no prado ou no jardim
Atrás das fadinhas desta estância,
Que cuidavam do destino para mim.
E eu me sabia a protegida delas,
Que velariam o meu sono de infanta
Ao som do leve crepitar das velas
Que a Matilde acenderia pressurosa
Depois de me cobrir com uma manta
E sobre ela, sem espinhos, minha rosa...
08/07/2005
Era meu grande prazer quando guria,
E eu não sentia maior outra alegria
Que nas noites do piscar dos pirilampos
Em que me via, em minha infância,
A correr no prado ou no jardim
Atrás das fadinhas desta estância,
Que cuidavam do destino para mim.
E eu me sabia a protegida delas,
Que velariam o meu sono de infanta
Ao som do leve crepitar das velas
Que a Matilde acenderia pressurosa
Depois de me cobrir com uma manta
E sobre ela, sem espinhos, minha rosa...
08/07/2005
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Cabeça de Alma (de Alma Welt)
Para viver a minha alma escrevo.
Não poderia ser sem me atrever...
E pergunto ao vento: “A que devo
Tanta honra da visita merecer?”
“A que devo, ó sol, e brancas nuvens,
Suas dádivas, seu calor e suas chuvas?
E vós outras, avezinhas e corujas
Com essa maciez de suas penugens?”
Matilde abana sua cabeça, enfastiada,
E diz, voltando logo ao casarão:
“Por ti, guria, já não posso fazer nada...”
“Tens a cabeça fraca ou complicada
E perguntas do enviado a intenção,
Quando devias ajoelhar por seu Patrão...”
(sem data)
Não poderia ser sem me atrever...
E pergunto ao vento: “A que devo
Tanta honra da visita merecer?”
“A que devo, ó sol, e brancas nuvens,
Suas dádivas, seu calor e suas chuvas?
E vós outras, avezinhas e corujas
Com essa maciez de suas penugens?”
Matilde abana sua cabeça, enfastiada,
E diz, voltando logo ao casarão:
“Por ti, guria, já não posso fazer nada...”
“Tens a cabeça fraca ou complicada
E perguntas do enviado a intenção,
Quando devias ajoelhar por seu Patrão...”
(sem data)
sábado, 11 de julho de 2009
Os Sonetos da Matilde (de Alma Welt)

Matilde e Alma- desenho de Guilherme de Faria a pincel e nanquin sobre papel Ingres, de 1971, coleção do pintor.
Nota
A numeração corresponde à postagem na série Sonetos Pampianos da Alma, de onde foram pinçados, salvo os não numerados, que estão sendo descobertos recentemente por mim na Arca da Alma, e até então inéditos.
Lucia Welt
Exausta (de Alma Welt)
Às vezes, de mim mesma fico exausta
E sem forças nem mesmo pra deixar-me.
Entretanto, garanto, não é charme
De quem está acostumada à vida fausta.
Como se fosse o derradeiro cada dia,
Sorvo avidamente o meu entorno
E isso tem trazido algum transtorno
Para quem me cerca e me avalia,
Como a minha fidelíssima Matilde,
Que da simplicidade é o protótipo,
Tão sensata embora pouco humilde
Pois bem que me queria ver mudada,
Tranqüila e bem feliz no estereótipo
De uma prenda deste Sul, apaziguada...
(sem data)
Auto-retrato (de Alma Welt)
As minhas andanças na coxilha,
De meu pensamento são passeios
E semeiam minha alma como silha
Para frutificar por outros meios,
Poemas, sonetos e memórias
Que eu nem sequer sabia ter retido
De outras gerações e suas estórias,
Num fluxo permanente e incontido.
O corpo? Sim, também floresce...
E estes prados viram meu amor
E minha beleza enquanto cresce.
Mas a prenda tão cedo rebelada,
E, diz Matilde, perdida em despudor,
Não servirá pro homem e pra mais nada...
17/08/2006
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